Allan Gandhi

Allan Gandhi na exposição Allan Gandhi, realizada de Mai/25 a Jul/25, Sardenberg .
Allan Gandhi at the exhibition Allan Gandhi, held from May/25 to Jul/25, Sardenberg .
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Ricardo Sardenberg

A pintura de Allan Gandhi opera numa zona liminar entre a figuração e  a desfiguração, entre o impulso representacional e a dissolução formal. Seus retratos, invariavelmente atravessados pela presença da figura masculina, não se inscrevem numa tentativa de capturar o real, mas antes de tensionar o aparato que historicamente sustentou a própria ideia de retrato. O que vemos, em última instância, não são sujeitos, mas o desmanche do sujeito como categoria estável: rostos dilatados, orelhas que se torcem em arabescos zoológicos e gestos que mais se aproximam da evocação do que da

descrição.

Trata-se, em Gandhi, de uma abordagem em que a pintura reivindica sua autonomia material sem renunciar ao poder sugestivo da figura. O traço rápido, a pincelada curta — quase pulsional — não se configura como estilo, mas como resistência à codificação. A cusparada que irrompe na tela, por exemplo, não é mero signo do grotesco, mas sim um índice performativo da própria lógica interna da pintura: ela não aponta para fora da tela, mas para sua própria condição enquanto superfície tátil da pintura.

Se a estrutura interna de cada quadro parece, à primeira vista, fechada, isso se desfaz à medida que o olhar reconhece a operação de recorte e recostura como dispositivo que rompe a clausura compositiva. A montagem literal das telas evidencia um desejo de desestabilização estrutural, de aludir a um espaço pictórico que não se completa no quadro, mas que insiste em se prolongar — talvez narrativamente, talvez como memória fragmentária.

Não há projeto prévio. Ou, se há, este está cifrado em esboços abandonados em cadernos de desenhos antigos, em notas visuais que funcionam não como mapa, mas como fantasmagoria do gesto. O passado, nos quadros de Gandhi, é sempre imaginado — ou melhor, é um passado vivido apenas como possibilidade de personagens da imaginação. Nesse entrelugar — entre lembrança e ficção, entre o afeto e o signo — é que sua pintura adquire densidade poética. Mas não se trata aqui apenas de lirismo; mas também se trata  de uma poética da instabilidade, onde a figura nunca se acomoda, e a própria linguagem pictórica é convocada a se reinventar a cada quadro.

Allan Gandhi é artista visual com trajetória marcada por exposições individuais e coletivas tanto no Brasil quanto no exterior. Em 2024, realizou a individual O Espelho na GRUTA.CC, em São Paulo. Participou de mostras como Noite Fria Fora de Época e Ervas Daninhas (Quadra Galeria, RJ), Taking the Light of the Prism (Lisboa) e  Pequenas Pinturas III (Auroras, SP). Em 2022, foi residente do programa Duplex AIR, em Lisboa. Seu trabalho já foi publicado em revistas como ArtMaze Mag (UK) e Dose Mag (PT).

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