Gênero: Paisagem
Breno Liguori
As paisagens de Heloísa Franco habitam um cenário onde algo parece estar para acontecer e, ao mesmo tempo, já está se desenrolando. Em conversa com a artista, ela relata que sua criação parte da luz como sensação, um estado de presença. A partir disso, Heloísa começa a trabalhar o quadro a partir da dicotomia entre a luz e o gesto que, segundo a artista, são co-dependentes durante toda a sua produção. Insere o escuro e, ao mesmo tempo, o retira, num processo de adição e subtração. O antagonismo é quem dá corpo à sua produção.
Segundo Heloísa, “fico tirando, colocando, apagando, adicionando, até que uma hora pára. Parece que quando acontece essa aparição/presença a pintura se encontra. Geralmente é um gesto que aconteceu de um jeito específico, numa velocidade específica, com uma parte da mão específica que `arma´ a pintura. Quase como se minha mão guardasse sempre algo que meu olho não captura”.
O gesto e a luz, células nucleares de seus trabalhos, trazem organicidade às obras que adquirem um quê de sublime. Os pontos de luz que busca durante o processo de criação com panos, espátulas e pincéis, retirando a tinta que considera excessiva ao mesmo tempo que insere através dessa subtração, abre caminhos e sugestões de percurso mentais e visuais. Dada a dimensão dos trabalhos que são pequenos, cada gesto é de suma importância. A produção da obra envolve também buscar essa presença dentro desse pequeno grande mundo. Uma escavação em busca do próprio inconsciente, do aqui e agora.
Molda formas e sensações que nos direcionam, o chiaroscuro amorfo neles trabalhado parece revelar a existência sem um mundo físico; o etéreo se revela aos olhos e ao mesmo tempo que foge. Há uma tentativa de buscar em suas paisagens, enquanto observador, uma figuração. O processo de querer ver algo é automático, mas Heloísa não deixa evidências perceptíveis, nem limites concretos. Não há pistas mas a buscamos e, nesse estado, somos confrontados com a nossa própria consciência e trazidos de volta à ela. Num movimento antagônico – novamente – as mesmas questões que antes projetávamos e procurávamos encontrar na obra agora são nossas. Os porquês voltam com intensidade a nós.
Nesse movimento, espectador versus obra, o conceito Heideggeriano de Dasein1 (ser-no-mundo) parece também evidenciar-se através das suas composições. Vemos – ou melhor – tentamos ver algo que se comunique conosco. Uma resposta ou sugestão de como existir no mundo, como lidar com ele. Um eco para além da existência em si, um eco afora. Tal movimento é, se não, vão. Não há saída para as nossas primeiras impressões, são heranças que carregamos e carregaremos. Aqui, Heloísa parece reconhecer esse estado, aceitar o que de fato se é, com sua luz e sua sombra. Criando um momentum, sua obra funciona como uma experiência estética de religamento consigo mesmo. Em outras palavras, a artista nos revela a nós.
“Em nossa relação com o mundo, somos capazes de nos retirar dele. As coisas referem-se a uma interioridade como partes do mundo dado (…) A arte as faz sobressair do mundo e assim as extrai desse pertencimento a um sujeito”2. Heloísa não limita a obra a ser mais um objeto no mundo, ao invés disso, cria um mundo nela. Mundo esse que comunica-se vivamente com quem o observa, não há como não ser impactado pela obra e por si mesmo diante dela.
Tal como as pinturas de Turner, a sugestão de sentidos, momentos e tempo – vento, tempestade, entardecer – são criadas a partir de gestos rápidos e não limitados pela linha. As formas habitam no campo da impressão e expressão, podem ser algo e podem não ser. A fluidez, aqui, é outra ferramenta que também conduz o olhar. Sua obra é um trânsito entre mundos. É sobre sensação.
“Mas o homem que torna a entrar pela `porta na muralha´ nunca será exatamente igual àquele que por ela saiu. Será mais sábio, mas menos presunçoso; mais feliz, mas menos autocomplacente; mais humilde no reconhecimento de sua ignorância, mas também mais bem equipado para compreender a relação entre as palavras e as coisas, entre o raciocínio sistemático e o Mistério insondável que, sempre em vão, ele tenta compreender”.
Através dos trabalhos reunidos, Heloísa Franco parece nos apresentar uma “porta na muralha”4, uma saída outra para defrontar a existência e também existir. Essa apresentação é feita através do silêncio, de forma sútil. A artista nos convida a refletir sobre tudo e também aceitar o nada.
Breno Liguori
São Paulo, março de 2022
Heloísa Franco’s landscapes inhabit a scenario where something seems to be happening and, at the same time, is already unfolding. In conversation with the artist, she reports that her creation starts from the light as a sensation, a state of presence. From there, Heloísa begins to work on the painting based on the dichotomy between light and gesture, which, according to the artist, are co-dependent throughout her production. She inserts the dark and, at the same time, removes it, in a process of addition and subtraction. Antagonism is what gives body to her production.
According to Heloísa, “I keep taking out, putting in, erasing, adding, until one hour it stops. It seems that when this apparition/presence occurs, the painting finds itself. It is usually a gesture that happens in a specific way, at a specific speed, with a specific part of the hand that ‘arms’ the painting. Almost as if my hand always holds something that my eye does not capture”.
Gesture and light, core cells of her works, bring organicity to the pieces that acquire a touch of sublime. The points of light that she seeks during the creation process with cloths, spatulas and brushes, removing the paint that she considers excessive while inserting through this subtraction, opens up paths and suggestions for a mental and visual path. Given the size of the works, which are small, each gesture is of paramount importance. The production of the work also involves seeking this presence within this little big world. An excavation in search of the unconscious itself, of the here and now.
Heloísa shapes forms and sensations that direct us, the amorphous chiaroscuro worked on them seems to reveal existence without a physical world; the ethereal reveals itself to the eyes and at the same time it flees. There is an attempt to seek in her landscapes, as an observer, a figuration. The process of wanting to see something is automatic, but Heloísa leaves no discernible evidence, nor concrete limits. There are no clues but we search for it and in that state we are confronted with our own consciousness and brought back to it. In an antagonistic movement again – the same questions that we projected before and tried to find in the work are now ours. The whys come back to us with intensity.
In this movement, spectator versus work, the Heideggerian concept of Dasein1(being-in-the-world) also seems to be evident through her compositions. We see or rather – we try to see something that communicates with us. An answer or suggestion on how to exist in the world, how to deal with it. An echo beyond existence itself, an echo outside. Such a move is, if not, vain. There is no way out for our first impressions, they are legacies that we carry and will carry. Here, Heloísa seems to recognize this state, to accept what one really is, with its light and its shadow. Creating a momentum, her production works as an aesthetic experience of reconnecting with oneself. In other words, the artist reveals ourselves to us.
“In our relationship with the world we are able to withdraw from the world. Things refer to an inwardness as parts of the given world (…) Art makes them stand out from the world and thus extracts them from this belongingness to a subject”2. Heloísa does not limit the work as being one more object in the world, instead, she creates a world in it. A world that communicates vividly with those who observe it, there is no way not to be impacted by the work and by oneself in front of it.
Like Turner’s paintings, the suggestion of meanings, moments and time – wind, storm, dusk – are created from quick gestures and not limited by the line. Forms inhabit the field of impression and expression, they may be something and they may not be. Fluidity, here, is another tool that also guides the gaze. Heloísa work is a transit between worlds. It’s about sensation.
“Mas o homem que torna a entrar pela `porta na muralha´ nunca será exatamente igual àquele que por ela saiu. Será mais sábio, mas menos presunçoso; mais feliz, mas menos autocomplacente; mais humilde no reconhecimento de sua ignorância, mas também mais bem equipado para compreender a relação entre as palavras e as coisas, entre o raciocínio sistemático e o Mistério insondável que, sempre em vão, ele tenta compreender”.
Through the selected works gathered at the exhibition, Heloísa Franco seems to present us with a “door in the wall”4, another way out to face existence and also to exist. This exhibition is made through silence, in a subtle way. The artist invites us to reflect on everything and also to accept nothingness.
Breno Liguori
São Paulo, March of 2022