Matias Oliveira
Fernanda Brenner
Matias Oliveira é um pintor na definição mais ampla do termo. Quando o conheci há quase dez anos, ele estava ajudando seu amigo Paulo Pjota com uma pintura em grande escala em um vasto espaço de arte recém-inaugurado no centro de São Paulo. Matias e Pjota foram as primeiras pessoas a ocupar o Pivô como um estúdio. Alguns meses depois, Pjota seguiu seu rumo, mas Matias ficou para trabalhar com um segundo ocupante daquele espaço ainda praticamente vazio, Rodolpho Parigi. Alguns meses depois, Rodolpho também concluiu sua estada e Matias ficou novamente, agora como membro da equipe do Pivô, um papel que ocupou por muitos anos antes de – finalmente! – voar sozinho como artista (eu o venho provocando há bastante tempo). O trabalho de Pjota e Parigi não tem nada em comum além do fato de que ambos são conhecidos por suas composições idiossincráticas e virtuosismo. Acredito que as cenas metalinguísticas de Oliveira poderiam ser facilmente inscritas nesta linhagem.
Em paralelo ao seu trabalho como montador de arte e pintor de parede e suas incursões noturnas espalhando seu nome de rua “Farsa-ma” pela cidade como um pixador, ele manteve, como um diário particular, uma prática de pintura impressionante fora das instituições de arte e do mercado. Suas pinturas são crônicas do cotidiano de uma exposição em construção a partir do olhar de alguém que estava sempre no backstage. No entanto, não há nenhum tipo de cinismo ou deboche com a “figura do pintor-estrela” (pensando aqui no filme icônico de Paul McCarthy “Painter”), mas sim comentários bem-humorados sobre o que significa ser um pintor no campo expandido do termo. Em resumo, seu trabalho é basicamente autobiográfico, porém sem solipsismo- risco frequente deste tipo de abordagem. Na exposição, acompanhamos o cotidiano de uma espécie de alter-ego tresloucado do artista. Seu corpo se contorce e gira para alcançar os cantos mais recônditos das paredes curvadas e pilares do edifício modernista em que ele costumava trabalhar todos os dias.
Acho que a força do trabalho de Oliveira vem de escolhas materiais despretensiosas (sobras de compensado de madeira e tinta de parede) e da intimidade do artista com seu assunto: pinturas sobre o ato de pintar como uma ocupação qualquer. O trabalho meticuloso e ao mesmo aparentemente casual de Matias Oliveira, é permeado por uma inquietude. É como se ele – ou seu personagem- estivessem sempre em busca de alguma coisa, mas o quê? Um significado para aquela situação? Algum tipo de respaldo? Isso permanece incógnito. A vida de qualquer pintor é, sem dúvida, turbulenta, marcada pela instabilidade e pela dúvida. Neste sentido, o trabalho de Matias Oliveira nos lembra que a batalha diária de todos nós não é tão diferente da batalha de um artista com uma tela em branco ou a busca do trabalhador autônomo pelo próximo cheque.
Fernanda Brenner
São Paulo, novembro de 2022.
Matias Oliveira is a painter in the broadest possible definition of the term. When I met him almost ten years ago, he was helping out his friend Paulo Pjota (then in the first steps of his now blossoming career) with a large-scale painting at a newly open – and almost entirely empty-3500 sqm art space. Matias and Pjota were the first people ever to use Pivô as a studio. A few months later, Pjota left, but Matias stayed to work with a second occupant of that massive space, Rodolpho Parigi. Then Rodolpho left, and Matias stayed again, now as a member of Pivô’s team, a role he occupied for many years before – finally! – flying solo as an artist (I’ve been teasing him for quite some time). Pjota and Parigi’s work have nothing in common apart from the fact that they are both known for their idiosyncratic compositions and virtuosity. I believe Oliveira’s metalinguistic scenes could easily be inscribed in this lineage.
In parallel to his day job as an art handler and wall painter and his night incursions spreading his street name “Farsa-ma” all over town as a pixador, he kept, like a private diary, an impressive painterly practice in a DIY space outside of the art institutions and market. His heartfelt – and little neurotic – observations of an exhibition in the making are oddly refreshing. They are not cynical or an easy pun to the ridicule of the “painter figure” in the art world (thinking about Paul McCarthy’s iconic film “Painter” here) but lighthearted commentaries on what it means to be a painter in the expanded field of the term. In short, his work is basically autobiographical. But as often happens with this thematic choice, his approach has no solipsism. In the exhibition, we are presented with diaristic snippets of a sort of alter-ego of the artist performing eccentric body twirls and turns to reach the most far-flung corners of the modernist curvy walls and pillars of the art space he used to work every day.
I guess the strength of his work comes from unpretentious material choices (leftover wood and housepaint) and the vivid sense of the contact between the artist and his subject: paintings about the act of painting as an ordinary occupation. Beyond being beautifully painted – Matias Oliveira’s seemingly casual, expressive brushwork conveys a world of confusion as if his restless character is constantly searching for something, meaning? Safety? Who knows. A painter’s life is undoubtedly turbulent, beset with instability and doubt. In this sense, Matias Oliveira’s work reminds us that the human battle to survive the elements is not dissimilar to the artist’s struggle to survive an encounter with a blank canvas or the freelance worker’s quest for the next paycheck.
Fernanda Brenner
São Paulo, November 2022