Nada Duro o Bastante para Quebrar

Maria Alice Salgado na exposição Nada Duro o Bastante para Quebrar, realizada de Jan/26 a Fev/26, Sardenberg.
Maria Alice Salgado at the exhibition Nada Duro o Bastante para Quebrar, held from Jan/26 to Feb/26, Sardenberg.

Nada Duro o Bastante para Quebrar

Ricardo Sardenberg

A Galeria Sardenberg tem o prazer de inaugurar seu novo espaço, localizado na Travessa Dona Paula, 29, com a exposição Nada Duro o Bastante para Quebrar, de Maria Alice Salgado. Nesta estreia da artista em São Paulo, o que se oferece ao olhar não é apenas uma coleção de objetos, mas também um convite a uma experiência de continuidade e entrega.

Nas formas biomórficas de Maria Alice, existe uma busca palpável por um erotismo em que os seres, normalmente isolados em sua individualidade, buscam a fusão com o outro. A cerâmica queimada, propositalmente deixada sem o pudor do esmalte ou do verniz, apresenta-se como pele — seca, porosa, oferecida. São corpos que parecem ter parado no exato momento em que a técnica se dissolve na terra.

Ao observarmos a construção minuciosa dessas peças, podemos perceber uma pulsação obsessiva: centenas de pequenas unidades, como células ou sementes, aglomeram-se para formar um todo que parece vivo, musculoso e em constante torção. Essa repetição não é mecânica, mas sim orgânica e rítmica, sugerindo um crescimento que ignora os limites da escultura tradicional. É a matéria que se dobra sobre si mesma, num movimento de desejo que não conhece descanso. Há algo profundamente sensual na maneira como esses organismos se multiplicam e se acasalam no chão da galeria, uma sincronia de formas cujo único propósito é a beleza do encontro em si. O barro cru nos devolve ao tempo geológico de Ediacara — o título da exposição foi extraído do poema O Jardim de Ediacara, de Alan Shapiro — em que a vida florescia em pura presença, antes mesmo das funções biológicas rígidas, e os organismos multicelulares não tinham boca, intestino ou órgãos reprodutivos. Assim, a galeria em estado de ruína se transforma num jardim de prazeres primordiais.

As peças de Maria Alice não se comportam como esculturas acabadas e distantes, mas funcionam como corpos num laboratório de afetos, testando terrenos e se entrelaçando. O espaço da galeria, suspenso entre o que foi destruído e o que está por vir, acolhe essas formas como se fossem parte de um ecossistema íntimo. A ausência de polimento não é uma falha, mas uma celebração da textura: o fogo agiu para interromper a transformação da terra em mercadoria, preservando a crueza que convida à carícia do olhar.

A formação da artista em bioconstrução traz para a galeria uma política de suavidade. Ao utilizar terra e palha — materiais ligados ao cuidado comunitário e ao saber feminino — Maria Alice transforma o canteiro de obras num espaço de acolhimento. O visitante é convidado a uma dança: precisa se curvar, desviar e focar no detalhe, abandonando a rigidez para conviver com as peças. Não há imposição monumental, apenas a respiração silenciosa das superfícies que pedem proximidade.

Ao insistir em formas que não são “duras o bastante”, a exposição nos seduz com a verdade da nossa própria natureza: somos, como a cerâmica, feitos de terra e desejo. Nada Duro o Bastante para Quebrar nos lembra, de forma poética e terna, que a beleza reside justamente naquilo que é capaz de se entregar, de se abrir e, finalmente, de se fundir com o mundo.

Ricardo Sardenberg

Sardenberg Gallery is pleased to open its new space, located at Travessa Dona Paula, 29 with
the exhibition Nada Duro o Bastante para Quebrar, by Maria Alice Salgado. In this debut of the artist
in São Paulo, what meets the eye is not only a collection of objects, but also an invitation to
experience both continuity and surrender.
In Maria Alice’s biomorphic forms, there is a palpable search for eroticism in which beings,
normally isolated in their individuality, seek fusion with the other. The fired ceramic, intentionally left
without glaze or varnish, presents itself as skin—dry, porous, offered. They are bodies that seem to
have stopped at the exact moment when the technique dissolves into the earth.
When we observe the detailed construction of those artworks, we can notice an obsessive
pulsation: hundreds of small units, like cells or seeds, cluster together to form a whole that seems
alive, muscular, and in constant twisting. Such repetition is not mechanical, but rather organic and
rhythmic, which suggests a growth that ignores the limits of traditional sculpture. It is matter that
folds upon itself, in a restless movement of desire. There is something deeply sensual in the way these
organisms multiply and mate on the gallery floor, a synchronicity of forms whose sole purpose is the
beauty of the encounter itself. The raw clay takes us back to the geological time of Ediacara—the
exhibition title was taken from the poem The Garden of Ediacara, by Alan Shapiro—in which life
flourished in pure presence, even before the rigid biological functions, and multicellular organisms
had no mouth, intestines, or reproductive organs. Thus, the gallery in a state of ruin becomes a garden
of primordial pleasures.
Maria Alice’s artworks don’t behave like finished, detached sculptures, but function like
bodies in a laboratory of affections, testing terrains and intertwining. The gallery space, suspended
between what has been destroyed and what is to come, welcomes these forms as if they were part of
an intimate ecosystem. The absence of polishing is not a flaw, but a celebration of texture: the fire
acted to interrupt the transformation of the earth into a commodity, preserving the rawness that invites
the caress of the gaze.
The artist’s background in bio-construction brings a policy of gentleness to the gallery. By
using earth and straw—materials related to community care and female knowledge—Maria Alice
transforms the construction site into a welcoming space. The visitors are invited to a dance: they must
bend down, deviate, and focus on the detail, abandoning rigidity to co-exist with the artworks. There
is no monumental imposition, only the silent breathing of surfaces that ask for closeness.
By insisting on forms that are not “hard enough,” the exhibition seduces us with the truth of
our own nature: like ceramics, we are made of both earth and desire. Nada Duro o Bastante para
Quebrar reminds us, in both a poetic and tender way, that beauty resides precisely in that which is
capable of surrendering, of opening itself and, finally, of merging with the world.

Ricardo Sardenberg

Exposições / Exhibitions