Capim D’Angola

Adriana Coppio na exposição Capim D’Angola, realizada de Mar/22 a Mai/22, Projeto Vênus.
Adriana Coppio at the exhibition Capim D’Angola, held from Mar/22 to May/22, Projeto Vênus.
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Capim D'Angola

Victor Gorgulho

Das cidades que habitam sonhos de veludo azul – e verde-amarelo também.
Victor Gorgulho

Comecemos pelas pistas mais evidentes, pelos signos mais familiares aos olhos do espectador desamparado de direções concretas no portal de entrada desta cidadelabirinto. Uma estrada erma, um céu crepuscular em revoada de morcegos, construções arquitetônicas erguidas sobre bases improváveis, seres humanos e seres de outras ordens também. Criaturas ambíguas.
Miremos a Capela, a princípio. Trôpega, sustenta-se sobre um barranco, sugerindonos uma paisagem tão física quanto emocional. A igreja de uma cidade do interior. De dentro dela, luzes amarelo-neon irradiam, pulsam. Estamos dentro de um sonho ou de uma paisagem real? Não há placas, mapas ou indicativos de qualquer sorte que nos guiem por aqui. Estamos à deriva, ainda que em terra firme.

Cruzamos com figuras humanas que, à distância, acreditamos conhecer – ou tentamos acreditar que as reconhecemos – seres guardados em algum lugar remoto de nossas memórias individuais. Um pouco mais de perto, recuamos em silêncio. Basta uma simples mirada para sermos tomados completamente por repulsa e atração. Quem são?
Não há saída aparente. Estamos em Capim D’Angola, um gentil senhor desavisado atende à nossa pergunta ofegante. Estamos no Brasil. Estamos no interior do país.

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É um tanto comum – e por vezes enfadonha – a tentativa de situar determinada prática pictórica contemporânea entre os esgotados territórios conceituais da figuração e da abstração, campos limítrofes, gavetas teóricas ultrapassadas e um tanto emperradas na hora de abrirem-se por completo, ao revelarem suas entranhas e contradições, interseções e impossibilidades.
As magnéticas pinturas de Adriana Coppio reclamam para si uma radical contemporaneidade que lhes é própria e irrevogável. Ao passo que a artista nos catapulta a uma viagem semi-lisérgica por um cenário tão reconhecível quanto deveras estranho, todas as classificações categóricas – portanto, implacáveis – típicas do léxico da arte contemporânea, parecem cair por terra. Ou melhor, suspendem-se em elevação direta ao céu erguido pelas velozes pinceladas da artista.

A “radical contemporaneidade” de suas obras pode ser justificada por chaves de leitura que, apesar de distintas, acabam por revelarem-se complementares. Estamos diante de paisagens, de retratos, de casas, construções e cenas típicas da representação de um Brasil profundo, interiorano, guardado nas mais tenras utopias de uma nação dócil e possível. Uma imagem-projeção, um eterno lançamento entrópico a um tempo que nunca chegará.

Vislumbramos aqui igrejas, vegetações e personagens que tanto nos remetem a tradição plástica da pintura moderna brasileira – Guignard, sobretudo, em suas sombrias paisagens, parece estreitar laços afetivos com a prática de Coppio – ao passo que nos lançam além, um tanto além. Estamos em suspensão, não esqueçamos. Não há placas e nem mapas, apenas vestígios, pistas e parcas indicações.

Sem lançar mão de artifícios extravagantes, de exageros pictóricos, Coppio nos conduz delicadamente por seu universo próprio, espantosamente autoral. Natural de Taubaté, no interior de São Paulo, a artista não hesita em tornar evidente seu interesse pelas histórias do folclore brasileiro, por mitologias e lendas típicas da vivência do campo. Capim D’Angola, por exemplo, região próxima a São José dos Campos onde encontra-se a capela da pintura homônima, reforça este ímpeto.

Mito e memória alimentam suas pinturas, amparam sua prática a um só tempo referencial à tradição plástica moderna e também à contemporânea, quando a artista bebe, por exemplo, nas fontes da psicanálise. Carl Jung e seu livro vermelho, o interesse por imagens do inconsciente, por antigas fotografias de sua família e por um fazer artístico pautado pela intuição e pelo atravessamento de coincidências de toda sorte.

A atmosfera onírica, as tintas soturnas e o indeciso céu crepuscular de suas pinturas nos confundem, afinal. Capim D’Angola é mesmo aqui?

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Convencidos de que não há saída fácil dentro deste labirinto fantasmagórico e um tanto real, o visitante de Capim D’Angola decide percorrer seus becos, meandros e cantos variados. Depara-se com seres ubíquos, animais abjetos, uma noiva saindo de uma gruta a nos fitar em seu olhar enigmático.

Cidade adentro, criaturas proliferam-se, indiscerníveis a olho nu. Da incandescente paisagem diurna – amarela, saturada, verde e neon – somos lançados a irredutibilidade do preto e do branco. Mandrágoras, portais, delírio, fervor, encantamento e explosões. Capim D’Angola não é uma paisagem dócil, isto nos é posto, em nada trata-se de uma cidade fácil de reter em nossas desavisadas retinas.

A enorme lua vermelha que paira no céu anuncia uma noite infinda, eterna. Estamos presos aqui? Não há tempo cronológico aparente e tudo segue em suspensão contínua, irreversível. Guignard encontra David Lynch e Arrigo Barnabé numa esquina da cidade. Juntos, tomam um pequeno pedaço de LSD e soltam uma robusta gargalhada. Estamos presos e não mais queremos sair.

Capim D’Angola é um delicioso sonho de veludo, uma espécie de Bacurau em chamas e belas ruínas idealizadas. Paisagem impossível, impalpável. Uma cidade pura, um microcosmo de Brasil fora do Brasil – estamos mesmo no Brasil?, reiteramos a pergunta.

À distância, aproxima-se o carrasco, à galope em nossa direção. Pulsa dentro do peito o coração selvagem de quem reconhece a paisagem na memória cada vez menos distante. O cavalheiro anuncia: não chegará a noite e tampouco tardará o dia a passar. Nos encontraremos eternamente pausados no entre, no angustiante limiar entre a consciência humana e o fazer plástico – é tudo pintura, afinal!, relaxem! Respiremos aliviados, ainda que a voz não consiga projetar-se na densa atmosfera densa de Angola. Tudo, então, permanecerá amarelo e também preto; azul e também cinza; verde e também chumbo.

Estamos no coração do Brasil: ao menos até que acordemos do fascinante e perturbador sonho ao qual Adriana Coppio nos lança. Nos cabe escolher acordar ou permanecermos deitados em berço esplêndido, tomados por sonhos profundos, gozando de um silêncio retumbante. O coração selvagem pulsa, o delírio nos cobra, a realidade é inescapável. Entre sair ou permanecer, uma escolha irredutível: estamos no Brasil, tudo aqui é o Brasil. Não nos deixemos enganar. Voltemos ao início.

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Of cities that inhabit blue velvet dreams – and yellow-green ones too.
Victor Gorgulho

Let’s start with the most obvious clues, the signs that are most familiar to the eyes of the viewer helpless of concrete directions at the entrance portal of this city-labyrinth. A deserted road, a twilight sky in a flock of bats, architectural constructions built on unlikely foundations, human beings and beings of other orders as well. Ambiguous creatures.

Let’s take a look at Capela, at first. Stumbling, it stands on a ravine, suggesting to us a landscape that is as physical as it is emotional. The church of a country town. From inside it, neon-yellow lights radiate, pulsate. Are we inside a dream or a real landscape? There are no signs, no maps, no indications of any kind to guide us here. We are adrift, yet on dry land.

We cross paths with human figures that, from a distance, we believe we know – or try to believe we recognize – beings stored in some remote place in our individual memories. A little closer, we recoil in silence. A simple glance is enough to be taken completely by repulsion and attraction. Who are they?

There is no apparent way out. We are in Capim D’Angola, a kindly man answers our question breathlessly. We are in Brazil. We are in the interior of the country.

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It is somewhat common – and sometimes boring – to try to situate a certain contemporary pictorial practice between the exhausted conceptual territories of figuration and abstraction, borderline fields, outdated theoretical drawers that are somewhat stuck when it comes time to open them completely, to reveal their entrails and contradictions, intersections and impossibilities.

Adriana Coppio’s magnetic paintings claim for themselves a radical contemporaneity that is their own and irrevocable. As the artist catapults us into a semi-lisergic journey through a scenario that is as recognizable as it is strange, all the categorical – and therefore relentless – classifications typical of the lexicon of contemporary art seem to fall to the ground. Or rather, they are suspended in direct elevation to the sky raised by the artist’s swift brushstrokes.

The “radical contemporaneity” of his works can be justified by reading keys that, despite being distinct, turn out to be complementary. We are faced with landscapes, portraits, houses, buildings and scenes typical of the representation of a deep, inland Brazil, kept in the most tender utopias of a docile and possible nation. A projection-image, an eternal entropic throwback to a time that will never come.

We glimpse here churches, vegetation, and characters that remind us so much of the plastic tradition of modern Brazilian painting – Guignard, above all, in his somber landscapes, seems to have close affective ties with Coppio’s practice – while launching us beyond, somewhat beyond. We are in suspension, let’s not forget. There are no signs, no maps, only traces, clues, and meager indications.

Without resorting to extravagant artifacts or pictorial exaggerations, Coppio delicately leads us through her own, surprisingly authorial universe. Born in Taubaté, in the interior of São Paulo, the artist does not hesitate to show her interest in stories from Brazilian folklore, in mythologies and legends typical of rural life. Capim D’Angola, for example, a region near São José dos Campos where the chapel in the homonymous painting is located, reinforces this impetus.

Myth and memory feed her paintings, and support her practice, which is at the same time referential to the modern plastic tradition and also to the contemporary, when the artist drinks, for example, from the sources of psychoanalysis. Carl Jung and his red book, the interest in images from the unconscious, old photographs of her family, and an artistic practice guided by intuition and by the crossing of all sorts of coincidences.

The oneiric atmosphere, the soturnal paints, and the indecisive twilight sky of his paintings confuse us, after all. Is Capim D’Angola really here?

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