A, prole
A, prole
Ricardo Sardenberg
O trabalho de Darks Miranda é notável por sua articulação entre memória, biologia e ficção.
Suas referências transitam entre as experimentações visuais do cinema de ficção científica global e a invenção de uma identidade nacional brasileira que, em seu momento mais otimista, teve como símbolo uma mulher branca, portuguesa, sexualizada e exótica.
Transformada em fenômeno hollywoodiano, essa figura ficou conhecida como Carmen Miranda nos anos 1930 e 1940.
A artista também convoca a imagem de uma paisagem destruída e exaurida de uma sociedade pós-industrial.
E, por fim, a elaboração de um mito da criação, simbolizado por movimentos geológicos e pelo ovo como signo de gênese e multiplicação potencial dos seres vivos.
As esculturas, majoritariamente ovais, evocam cascas, carapaças e formações minerais.
Suas superfícies são densas, marcadas por fissuras, escorrimentos e incrustações que aproximam o orgânico do tectônico.
Feitas de cerâmica, papel machê e fragmentos de asfalto e concreto recolhidos nos espaços urbanos, as peças incorporam materialmente uma São Paulo em permanente estado de soterramento de seu próprio passado.
Um processo impulsionado pela especulação imobiliária.
Não se trata apenas de representar a ruína, mas de metabolizá-la.
Ao retomar essa forma arquetípica, sua produção dialoga com uma linhagem simbólica que atravessa culturas.
Das cosmogonias órficas ao “ovo cósmico” presente em narrativas hindus e budistas, ele representa a totalidade indiferenciada que antecede a separação entre céu e terra, espírito e matéria.
No taoísmo, a imagem da unidade primordial que se divide em forças complementares ecoa essa mesma concepção de potencial contido.
No entanto, Darks Miranda não busca restaurar um símbolo universal perdido.
Hoje já contaminado pela circulação global, onde o universal também é uma construção histórica.
Ao contrário, ela o submete à fratura contemporânea, ao impacto do consumo e do descarte de imagens, personalidades e representações identitárias.
Seus ovos estão queimados, rachados, incrustados de asfalto e resíduos urbanos.
São totalidades falhadas.
Ou totalidades que explicitam sua própria contaminação histórica no presente.
Da ficção de uma pureza da arte — ou de uma moralidade dita pura — surge a persona Darks Miranda.
Um ser imaginário profundamente marcado por sua condição periférica.
A pureza de uma identidade periférica, nas mãos da artista, é marcada por uma evidente impureza constitutiva.
Nas esculturas, o asfalto incrustado na cerâmica, as fissuras, os escorrimentos e as crostas funcionam precisamente como essa matéria deslocada.
Eles perturbam a fantasia de uma origem intacta, seja ela estética ou geopolítica.
A periferia, nesse sentido, não se afirma como um novo território puro.
Mas como um espaço onde as classificações se tornam instáveis.
O que parece ruína é também embrião.
O que parece contaminação é possibilidade de recomposição.
Ao incorporar o impuro, a obra não celebra a desordem.
Ela revela que toda pureza é uma construção frágil.
E que é nas zonas de mistura, nas falhas e nos resíduos que novas formas de sentido emergem.
A paisagem criada por Darks Miranda transforma a perplexidade do mundo contemporâneo em um comentário sobre os campos imaginários que os seres biológicos mineralizados habitam.
As obras parecem suspensas entre fossilização e nascimento.
Como organismos de pedra em estado latente.
Nesse território ambíguo — entre pântano e canteiro de obras, entre fóssil e embrião — a artista nos conduz a um espaço onde a ancestralidade está em crise perpétua.
Um espaço tensionado pelas compulsões destrutivas da expansão econômica do urbano, tanto no plano físico quanto no digital.
A criação, aqui, não é um evento inaugural.
Mas um processo contínuo.
Um processo que ocorre nas margens, nas fissuras e nas zonas de descarte do mundo contemporâneo.
Darks Miranda’s work is notable for its articulation of memory, biology, and fiction.
Her references move between the visual experimentation of global science fiction cinema and the invention of a Brazilian national identity that, in its most optimistic moment, took as its symbol a white, Portuguese, sexualized, and exotic woman.
Transformed into a Hollywood phenomenon, she became known as Carmen Miranda in the 1930s and 1940s.
The artist also invokes the image of a devastated and exhausted landscape of a post-industrial society.
And, finally, the elaboration of a myth of creation, symbolized by geological movements and by the egg as a sign of genesis and the potential multiplication of living beings.
The sculptures, predominantly oval, evoke shells, carapaces, and mineral formations.
Their surfaces are dense, marked by fissures, drips, and encrustations that bring the organic close to the tectonic.
Made of ceramic, papier-mâché, and fragments of asphalt and concrete collected from urban spaces, the works materially incorporate a São Paulo in a permanent state of burying its own past.
A process driven by real estate speculation.
This is not merely a representation of ruin, but its metabolization.
By returning to this archetypal form, her practice enters into dialogue with a symbolic lineage that crosses cultures.
From Orphic cosmogonies to the “cosmic egg” present in Hindu and Buddhist narratives, it represents the undifferentiated totality that precedes the separation of heaven and earth, spirit and matter.
In Taoism, the image of primordial unity dividing into complementary forces echoes this same conception of contained potential.
Yet Darks Miranda does not seek to restore a lost universal symbol.
One that is now already contaminated by global circulation, where the universal itself is also a historical construction.
On the contrary, she subjects it to contemporary fracture.
To the impact of consumption and the disposal of images, personalities, and identity representations.
Her eggs are burned, cracked, and encrusted with asphalt and urban debris.
They are failed totalities.
Or totalities that make explicit their own historical contamination in the present.
From the fiction of a pure art—or of a supposedly pure morality—emerges the persona Darks Miranda.
An imaginary being deeply marked by her peripheral condition.
The purity of a peripheral identity, in the artist’s hands, reveals itself as constitutively impure.
In the sculptures, the asphalt embedded in the ceramic, the fissures, drips, and crusts function precisely as displaced matter.
They disturb the fantasy of an intact origin, whether aesthetic or geopolitical.
The periphery, in this sense, does not assert itself as a new pure territory.
But as a space where classifications become unstable.
What appears to be ruin is also embryo.
What appears to be contamination is the possibility of recomposition.
By incorporating the impure, the work does not celebrate disorder.
Instead, it reveals that all purity is a fragile construction.
And that it is in zones of mixture, in fractures and residues, that new forms of meaning emerge.
The landscape created by Darks Miranda transforms the perplexity of the contemporary world into a commentary on the imaginary fields inhabited by mineralized biological beings.
The works seem suspended between fossilization and birth.
Like stone organisms in a latent state.
In this ambiguous territory—between swamp and construction site, between fossil and embryo—the artist leads us into a space where ancestry exists in perpetual crisis.
A space strained by the destructive compulsions of urban economic expansion, both in the physical and digital realms.
Creation here is not an inaugural event.
But a continuous process.
A process that occurs at the margins, in fissures, and in the discard zones of the contemporary world.
Imagens / Images
Exposições / Exhibitions
-
Prêmio PIPA – A janela para a arte contemporânea brasileira
Darks Miranda
solo show
exposição individual
-
A figura da quimera seria mais adequada
collective show
exposição coletiva
-
Apocalipse Now
collective show
exposição coletiva
-
Veneno, Meu companheiro
Darks Miranda
solo show
exposição individual