Veneno, Meu companheiro
Ricardo Sardenberg
Darks Miranda é a entidade da artista, cineasta, e performer cearense Luisa Marques. Seus trabalhos misturam cinema experimental, esculturas, pinturas, desenhos e instalações que evocam a falência do projeto modernista brasileiro concomitante ao esgotamento do modelo produtivo do liberalismo global em países periférico e o legado deixado em forma de detrito ambiental, cultural, social, histórico, econômico e político. A precariedade e transitoriedade da vida periférica, assim como seu impulso destruidor do meio ambiente, ganham formas e matérias ambíguas na construção de um Novo Mundo (sic) paralelo às cadeias produtivas, marcado pela destruição, inspirado na ficção científica dos anos 1960 e 1970 com seus ambientes fantásticos e poluídos, produtores de seres fantasmagóricos, monstros e claro, barrocos.
Em Veneno, Meu Companheiro, título retirado da letra da música Frevo Mulher do cantor e compositor Zé Ramalho, o “Bob Dylan” brasileiro, as imagens fantásticas, de cores fortes, natureza agreste, mas exuberante, misturados a fé, ao amor, ao canto se revelam indeterminadas e sempre movediças, não permitindo o entendimento do todo que move o mundo. A lista de materiais das obras apresentadas por Darks já é um índice desse mundo misterioso e tóxico: gesso, juta, bastão, spray, resina, pigmento, pinus, látex, coroa de abacaxi, uvas de plástico, estopa, poliuretano e o mineral bronze entre tantos outros, revelam um meio de produção alquímico e carnavalizado.
A própria entidade Darks Miranda, a imagem invertida no espelho de Carmen Miranda, uma mulher que deixa de ser ela mesma para se tornar uma imagem do Brasil exótico, tropical, mulher fruta e símbolo de uma identidade nacional projetada em Hollywood no auge do cinema americano como arma cultural de colonização, símbolo do sucesso e do fracasso, é a própria representação ambígua das “conquistas” modernizantes. Como Darks, Luisa incorpora no próprio corpo as questões da feminidade brasileira como expressão do exótico num universo profundamente marcado pelo macho branco imbricado no projeto dominador moderno.
Com um universo plástico que flerta com o belo, com o tropical, com o exótico, mas atravessado pelo poluído, pelo que há de movediço e ambíguo, um belo que é crítico do próprio belo, Darks Miranda questiona o mundo que estamos constantemente construindo e destruindo, do movimento da história e as estruturas ideológicas de poder que movem a nossa existência.
Darks Miranda is the artistic entity of Luisa Marques, a filmmaker, artist, and performer from Ceará, a state in northeastern Brazil. Her works blend experimental cinema, sculptures, paintings, drawings, and installations that evoke the collapse of the Brazilian modernist project alongside the exhaustion of the productive model of global liberalism in peripheral countries, and the legacy left in the form of environmental, cultural, social, historical, economic, and political debris. The fragility and transience of peripheral life, as well as its destructive impulse on the environment, take on ambiguous forms and materials in the construction of a parallel “New World” (sic) marked by destruction and inspired by the science fiction of the 1960s and 1970s with their fantastic and polluted environments, giving rise to phantasmagorical beings, monsters, and of course, baroque elements.
In “Poison, My Companion”, a title drawn from the lyrics of the song “Frevo Mulher” by the Brazilian singer and composer Zé Ramalho, often referred to as the Brazilian “Bob Dylan,” the fantastical images, vibrant colors, untamed yet lush nature, intertwined with faith, love, and song, manifest as indefinite and ever-shifting. These elements do not allow for a comprehensive grasp of the entirety that propels the world. The roster of materials employed in Darks’ presented artworks serves as an index of this mysterious and toxic realm: plaster, jute, sticks, spray, resin, pigment, pine, latex, pineapple crown, plastic grapes, burlap, polyurethane, and the mineral bronze among many others, unveiling an alchemical and carnival-esque mode of production.
The very entity of Darks Miranda, the inverted image in Carmen Miranda’s mirror, a woman who ceases to be herself to become an emblem of exotic, tropical Brazil—a “fruit woman” and a symbol of a national identity projected in Hollywood during the pinnacle of American cinema, serving as a cultural weapon of colonization, embodying both success and failure—represents the inherent ambiguity of “modernizing” achievements. As Darks, Luisa embodies within her own body the complexities of Brazilian femininity, serving as an expression of the exotic in a realm deeply influenced by the white male entwined within the framework of the dominating modern project.
With a visual universe that flirts with beauty, tropical allure, and exoticism, yet permeated by the polluted and the enigmatic, a beauty that critiques its very essence, Darks Miranda questions the world we are ceaselessly building and dismantling. She delves into the ebb and flow of history, dissecting the ideological power structures that propel our existence.
Exposições / Exhibitions
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Prêmio PIPA – A janela para a arte contemporânea brasileira
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A figura da quimera seria mais adequada
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