Plim Plim
Ricardo Sardenberg
O Projeto Vênus tem o prazer em anunciar a inauguração da exposição Plin Plin, do artista carioca Felipe Barsuglia, em São Paulo, que será inaugurada no dia 01 de junho e estará aberta até o dia 06 de julho.
Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou
Nesses novos dias, as alegrias serão de todos, é só querer
Todos os nossos sonhos serão verdade, o futuro já começou
Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa
É de quem quiser, quem vier
A festa é sua, hoje a festa é nossa
É de quem quiser, quem vier
Em Plin Plin, Felipe Barsuglia usa a pintura como ponto de partida para compor uma deliciosa exposição, repleta de insights, em que ele reconfigura a galeria numa grande instalação imersiva com sons, cheiros, vídeos e móveis que ativam a nossa memória coletiva infantil. Construída a partir dos signos dos programas da TV brasileira do final dos anos 1990 e início dos 2000 e como a TV constrói o nosso imaginário dominado pelo desejo incessante por celebridades, consumo e entretenimento, Barsuglia reflete como aquilo que é doméstico e muitas vezes solitário, pode ser também uma arma de crítica à atitude domesticada dos espaços expositivos contemporâneos. Plin Plin é uma instalação audaciosa e divertida.
Colorida, muitas vezes histriônica, barulhenta, falsamente celebratória, a exposição Plin Plin inicia antes mesmo de entrarmos nas salas de exposição, já na sinalização em verde, azul e vermelho (o RGB red/green/blue da tela da TV) sobre a porta. Está lá o índice estético colorido que nos remonta aos infinitos salões de festas infantis que dominaram a ascensão da classe média ao mercado de consumo de massas. Foi a partir do dia 1º de julho de 1994 — durante a exposição esse momento histórico completará 30 anos — que entrou em circulação o real: o dinheiro. Nessa data instaurou-se uma nova realidade de trocas, de um otimismo desenfreado de que tudo seria melhor, pois agora temos um dinheiro, ou “topa tudo por dinheiro” como se vê no icônico vídeo da exposição, um GIF em que corta e refaz o som da abertura do programa de TV epônimo com uma batida industrial sinistra. Barsuglia formou-se tanto como artista quanto como pessoa nessa realidade.
Reality show, Papa Tudo, DDD (o acesso massivo à telefonia fixa e depois, ao celular), Global, Shoptime, Amaury Jr., Boninho, Ronaldo, Romário, Mister M. e Topa Tudo por Dinheiro, fizeram parte da paisagem pré-digital do Brasil, numa grande imersão coletiva, quase uma grande festa que prometia acesso aos bens de consumo, à fama e à felicidade. No vídeo Rotina, toda as promessas estão lá transformadas num batidão: Programa Livre, Em Nome do Amor, Telecurso 2000, Tevê Fama, Caça Talentos, Programa H, Note e Anote, e Passa e Repassa. Todos entrecortados com o sonzinho nacionalista clássico da Globo — Brasiiiiiil — que nos une como povo, numa espécie de arqueologia bizarra da paisagem brasileira dos últimos 30 anos, que não tem nada a ver com a natureza ou a espiritualidade tão propagada nos dias de hoje.
Permeado pelo perfume de carro novo que impregna a exposição, por balinhas ativadoras da saliva da memória, por potinhos de Chamyto que cospem tinta amarela esparramados pelo chão, grandes pinturas se impõem por toda a exposição. Logo na entrada, a maravilhosa Bolso vazio, já parece anunciar a catástrofe. Como sempre disfarçada em alegria, uma certa solidão parece estar enterrada nas entranhas da festa. Na monumental Plin Plin, a figura solitária afunda nos estímulos televisivos alucinógenos numa madrugada de abandono, ou na Coletiva de imprensa, com seus microfones voadores sobre um picadeiro enquanto Ronaldo, o Fenômeno, reclina sobre a imagem como uma Olympia e parece anunciar que o palhaço é você. Amizade celebra o melhor amigo do homem, o cão, talvez a figura mais humana da exposição.
E assim, pouco a pouco, o Plin Plin, aquele som icônico da Rede Globo que parecia anunciar dias e noites sem fim de felicidade, parece refletir sobre o hoje. Dessa paisagem de imagens e sons e estímulos surge uma nova geração que vive tomando anti-depressivos e que batalha todos os dias e horas por um lugar ao sol para tornar sua imagem um sucesso, ou o melhor produto da prateleira.
O Projeto Vênus tem o prazer em anunciar a inauguração da exposição Plin Plin, do artista carioca Felipe Barsuglia, em São Paulo, que será inaugurada no dia 01 de junho e estará aberta até o dia 06 de julho.
Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou
Nesses novos dias, as alegrias serão de todos, é só querer
Todos os nossos sonhos serão verdade, o futuro já começou
Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa
É de quem quiser, quem vier
A festa é sua, hoje a festa é nossa
É de quem quiser, quem vier
Em Plin Plin, Felipe Barsuglia usa a pintura como ponto de partida para compor uma deliciosa exposição, repleta de insights, em que ele reconfigura a galeria numa grande instalação imersiva com sons, cheiros, vídeos e móveis que ativam a nossa memória coletiva infantil. Construída a partir dos signos dos programas da TV brasileira do final dos anos 1990 e início dos 2000 e como a TV constrói o nosso imaginário dominado pelo desejo incessante por celebridades, consumo e entretenimento, Barsuglia reflete como aquilo que é doméstico e muitas vezes solitário, pode ser também uma arma de crítica à atitude domesticada dos espaços expositivos contemporâneos. Plin Plin é uma instalação audaciosa e divertida.
Colorida, muitas vezes histriônica, barulhenta, falsamente celebratória, a exposição Plin Plin inicia antes mesmo de entrarmos nas salas de exposição, já na sinalização em verde, azul e vermelho (o RGB red/green/blue da tela da TV) sobre a porta. Está lá o índice estético colorido que nos remonta aos infinitos salões de festas infantis que dominaram a ascensão da classe média ao mercado de consumo de massas. Foi a partir do dia 1º de julho de 1994 — durante a exposição esse momento histórico completará 30 anos — que entrou em circulação o real: o dinheiro. Nessa data instaurou-se uma nova realidade de trocas, de um otimismo desenfreado de que tudo seria melhor, pois agora temos um dinheiro, ou “topa tudo por dinheiro” como se vê no icônico vídeo da exposição, um GIF em que corta e refaz o som da abertura do programa de TV epônimo com uma batida industrial sinistra. Barsuglia formou-se tanto como artista quanto como pessoa nessa realidade.
Reality show, Papa Tudo, DDD (o acesso massivo à telefonia fixa e depois, ao celular), Global, Shoptime, Amaury Jr., Boninho, Ronaldo, Romário, Mister M. e Topa Tudo por Dinheiro, fizeram parte da paisagem pré-digital do Brasil, numa grande imersão coletiva, quase uma grande festa que prometia acesso aos bens de consumo, à fama e à felicidade. No vídeo Rotina, toda as promessas estão lá transformadas num batidão: Programa Livre, Em Nome do Amor, Telecurso 2000, Tevê Fama, Caça Talentos, Programa H, Note e Anote, e Passa e Repassa. Todos entrecortados com o sonzinho nacionalista clássico da Globo — Brasiiiiiil — que nos une como povo, numa espécie de arqueologia bizarra da paisagem brasileira dos últimos 30 anos, que não tem nada a ver com a natureza ou a espiritualidade tão propagada nos dias de hoje.
Permeado pelo perfume de carro novo que impregna a exposição, por balinhas ativadoras da saliva da memória, por potinhos de Chamyto que cospem tinta amarela esparramados pelo chão, grandes pinturas se impõem por toda a exposição. Logo na entrada, a maravilhosa Bolso vazio, já parece anunciar a catástrofe. Como sempre disfarçada em alegria, uma certa solidão parece estar enterrada nas entranhas da festa. Na monumental Plin Plin, a figura solitária afunda nos estímulos televisivos alucinógenos numa madrugada de abandono, ou na Coletiva de imprensa, com seus microfones voadores sobre um picadeiro enquanto Ronaldo, o Fenômeno, reclina sobre a imagem como uma Olympia e parece anunciar que o palhaço é você. Amizade celebra o melhor amigo do homem, o cão, talvez a figura mais humana da exposição.
E assim, pouco a pouco, o Plin Plin, aquele som icônico da Rede Globo que parecia anunciar dias e noites sem fim de felicidade, parece refletir sobre o hoje. Dessa paisagem de imagens e sons e estímulos surge uma nova geração que vive tomando anti-depressivos e que batalha todos os dias e horas por um lugar ao sol para tornar sua imagem um sucesso, ou o melhor produto da prateleira.
Projeto Vênus is pleased to announce the opening, in São Paulo, of the exhibition Plin Plin, by the artist from Rio de Janeiro Felipe Barsuglia, which may be seen from June 1st to July 6th.
Today is a new day of a new era that has begun
In these new days, the joys will be everyone’s, you just have to desire it
All our dreams will come true, the future has already begun
Today the party is yours, today the party is ours
Whoever wants, whoever comes
The party is yours, today the party is ours
Whoever wants, whoever comes
In Plin Plin, Felipe Barsuglia uses painting as a starting point to compose a delightful exhibition, full of insights, in which he reconfigures the gallery into a large immersive installation with sounds, smells, videos and furniture that activate our collective childhood memory. Based on the signs of Brazilian TV programs from the late 1990s and early 2000s and how TV constructs our imaginary dominated by the incessant desire for celebrities, consumption and entertainment, Barsuglia reflects on how what is domestic and often solitary can also be a weapon to criticize the domesticated attitude of contemporary exhibition spaces. Plin Plin is an audacious and entertaining installation.
Colorful, often histrionic, noisy, falsely celebratory, Plin Plin exhibition begins even before we enter the exhibition halls, already in the green, blue and red signage (the RGB red/green/blue of the TV screen) over the door. There’s the colorful aesthetic index that reminds us of the endless children’s party halls that dominated the rise of the middle class to the mass consumer market. It was from July 1st, 1994—during the exhibition this historical moment will turn 30 years old—that the Real (the currency) came into circulation. That day saw the establishment of a new reality of exchange, of unbridled optimism that everything would be better, because now we had money, or “anything for money” as seen in the exhibition’s iconic video, a GIF in which the sound of the opening of the eponymous TV show is cut and redone with an ominous industrial beat. Barsuglia was formed both as an artist and as a person in this reality.
Reality show, Papa Tudo, DDD (mass access to landlines and later to mobile phones), Global, Shoptime, Amaury Jr., Boninho, Ronaldo, Romário, Mister M. and Topa Tudo por Dinheiro were all part of the Brazilian pre-digital scene, in a great collective immersion, almost a great party that promised access to consumer goods, fame and happiness. In the Rotina video, all the promises are there transformed into a pounding beat: Programa Livre, Em Nome do Amor, Telecurso 2000, Tevê Fama, Caça Talentos, Programa H, Note e Anote and Passa e Repassa. All interspersed with Globo’s classic nationalist soundtrack—Braziiiiiil—which unites us as a people, in a kind of bizarre archaeology of the Brazilian landscape of the last 30 years, which has nothing to do with nature or the spirituality so propagated these days.
Permeated by the scent of new car that fills the exhibition, by candies that activate the saliva of memory, by Chamyto pots that spit yellow paint all over the floor, large paintings impose themselves throughout the exhibition. Right at the entrance, the wonderful Bolso vazio already seems to announce the catastrophe. As always disguised as joy, a certain loneliness seems to be buried in the bowels of the party. In the monumental picture called Plin Plin, the solitary figure sinks into the hallucinogenic television stimuli in a dawn of abandonment, or in the Coletiva de imprensa, with its flying microphones over an arena while Ronaldo, the Phenomenon, reclines over the image like an Olympia and seems to announce that you are the clown. Amizade celebrates man’s best friend, the dog, perhaps the most human figure in the exhibition.
And so, little by little, Plin Plin, that iconic sound from Rede Globo that seemed to announce endless days and nights of happiness, seems to think about today. From this landscape of images and sounds and stimuli comes a new generation that lives on anti-depressants and battles every day and hour for a place in the sun to make their image a success, or the best product on the shelf.
Imagens / Images
Exposições / Exhibitions
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