SP-Arte Rotas: Pinturas de Ressaca
Pinturas de Ressaca
Gabriel Secchin
Jovem já cansado
Adulto (ainda) infantilizado
Boca seca
Cabeça latejante
Coração palpitante
Sono insuficiente interrompido
Sonho alucinante perdido
A liberdade instintiva com a qual Felipe Barsuglia se atira na sua prática artística tem a proeza de evocar sentimentos e respostas íntimas e até comuns.
Sua habilidade e predisposição de absorver e extroverter nosso tempo com humor desconcertante faz com que ele se torne um raro habitante de uma cena dominada por uma unanimidade bem assessorada e bem comportada.
E para isso, ele não depende de excessos. Por vezes, uma palavra pintada, uma pessoa retratada ou um som incessante são mais do que suficiente para demonstrar sua convicção e autenticidade.
Memória embaçada
Mensagens impulsivas
Privada abraçada
Riso e intestino frouxos
Ansiedade badalada
Novas amizades
Imunidade abalada
Novas inimizades
Nessa série chamada “Pinturas de Ressaca”, Felipe, de ressaca, chega ao ateliê e, com a sensibilidade aguçada, se escuta e atinge o óbvio surpreendente: pinta uma composição que reflete o presente. A intoxicação do dia anterior busca alento no conforto ilusório do dia seguinte. E assim segue.
Nesse caso, a série não é fórmula e, sim, receita. Aqui, revela-se a dicotomia entre vício e hábito, projeto e experiência. A trinca, que mantém a figura e alterna as iguarias, baseia-se na memória, na palavra e na vivência.
O jogo de elementos e alimentos que às vezes parecem fazer sentido juntos, segue, também, caminhos do trocadilho, do absurdo, da saturação e do imaginário popular.
Ao acolher uma ideia tanto genuína quanto despretensiosa – de imprimir o ato e efeito de pintar em convalescença, rememorando comidas afetivas e, portanto, experiências pessoais, – Felipe fez uma pintura de gênero ao seu modo, mas a idiossincrasia desses tons levemente ralos e encardidos e renderizações sem imagens de referência, alcança além da ideia de coletânea e do esgotamento de um assunto.
Barsuglia pintou estados mentais de forma improvável. Para tantas formas roliças, crocantes e pastosas, existe a mesma quantidade de aflições, ansiedades e desejos.
Procura conforto
Recorre à nostalgia
Anseia por misericórdia
Não alimenta o monopólio
Checa preço em três mercados
Faria tudo de novo
Trinta e seis vezes mais
Arrependimento a cavalo
Reincidência à milanesa
Entretenimento empanado
Pão e circo
Nada disso faz sentido
Mas é preciso
Pão, pão, queijo, queijo
Se debruça
Corpo cansado e olho vidrado
Nosso circuito exaure termos, jeitos, etiquetas, caras, nomes e vacilos e o que fica é a ressaca.
Quando chego em uma feira de arte, automaticamente busco uma bebida.
A ilusão de alívio mira na tensão concreta.
Não foi feita pra dar certo.
An already tired young person
An adult who is (still) infantilized
Dry mouth
A throbbing head
A pounding heart
Insufficient and interrupted sleep
A lost, hallucinatory dream
The instinctive freedom with which Felipe Barsuglia throws himself into his artistic practice has the ability to evoke intimate and even common feelings and responses.
His ability and predisposition to absorb and externalize our time with disconcerting humor makes him a rare inhabitant of a scene dominated by well-advised and well-behaved uniformity.
And for that to happen, he does not rely on excesses. Sometimes, a painted word, a portrayed person, or an incessant sound are more than enough to demonstrate his conviction and authenticity.
Blurred memory
Impulsive messages
Embraced toilet
Loose laughter and intestines
Hyped anxiety
New friendships
Shaken immunity
New enemies
In this series called Pinturas de Ressaca, Felipe, with a hangover, arrives at the studio and, with heightened sensitivity, arrives at the surprising obvious: he paints a composition that reflects the present. The intoxication of the previous day seeks solace in the illusory comfort of the following day. And so it goes.
In this case, the series is not a formula, but rather a recipe. Here, the dichotomy between addiction and habit, project and experience is revealed. The trio, which maintains the figure and alternates the treats, is based on memory, words, and experience.
The interplay of elements and foods that sometimes seem to make sense together also follows paths of puns, absurdity, saturation, and popular imagination.
By embracing an idea that is both genuine and unpretentious—to capture the act and effect of painting while convalescing, recalling comfort foods and, therefore, personal experiences—Felipe created a genre painting in his own way, but the idiosyncrasy of these slightly thin and dirty tones and renderings made without reference images goes beyond the idea of a collection and the exhaustion of a subject.
Barsuglia painted mental states in an unlikely way. For so many plump, crunchy, and pasty shapes, there is an equal amount of afflictions, anxieties, and desires.
He seeks comfort
He resorts to nostalgia
He longs for mercy
He doesn’t feed the monopoly
He checks prices in three markets
He would do it all again
Thirty-six times more
Repentance on horseback
Milanese-style recidivism
Breaded entertainment
Bread and circus
None of that makes sense
But it’s necessary
Bread, bread, cheese, cheese
He leans over
Tired body and glazed eyes
Our circuit exhausts terms, manners, labels, faces, names, and mistakes, and what remains is the hangover.
When I arrive at an art fair, I automatically look for a drink.
The illusion of relief targets concrete tension.
It wasn’t meant to work.
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