SP-Arte Rotas: Pinturas de Ressaca

Felipe Barsuglia na exposição SP-Arte Rotas: Pinturas de Ressaca, realizada em Ago/25, SP-Arte Rotas .
Felipe Barsuglia at the exhibition SP-Arte Rotas: Pinturas de Ressaca, held in Aug/25, SP-Arte Rotas .
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Pinturas de Ressaca

Gabriel Secchin

 

Jovem já cansado

Adulto (ainda) infantilizado

Boca seca

Cabeça latejante

Coração palpitante

Sono insuficiente interrompido

Sonho alucinante perdido

 

A liberdade instintiva com a qual Felipe Barsuglia se atira na sua prática artística tem a proeza de evocar sentimentos e respostas íntimas e até comuns.

Sua habilidade e predisposição de absorver e extroverter nosso tempo com humor desconcertante faz com que ele se torne um raro habitante de uma cena dominada por uma unanimidade bem assessorada e bem comportada.

E para isso, ele não depende de excessos. Por vezes, uma palavra pintada, uma pessoa retratada ou um som incessante são mais do que suficiente para demonstrar sua convicção e autenticidade.

 

Memória embaçada

Mensagens impulsivas

Privada abraçada

Riso e intestino frouxos

Ansiedade badalada

Novas amizades

Imunidade abalada

Novas inimizades

 

Nessa série chamada “Pinturas de Ressaca”, Felipe, de ressaca, chega ao ateliê e, com a sensibilidade aguçada, se escuta e atinge o óbvio surpreendente: pinta uma composição que reflete o presente. A intoxicação do dia anterior busca alento no conforto ilusório do dia seguinte. E assim segue.

Nesse caso, a série não é fórmula e, sim, receita. Aqui, revela-se a dicotomia entre vício e hábito, projeto e experiência. A trinca, que mantém a figura e alterna as iguarias, baseia-se na memória, na palavra e na vivência.

O jogo de elementos e alimentos que às vezes parecem fazer sentido juntos, segue, também, caminhos do trocadilho, do absurdo, da saturação e do imaginário popular.

Ao acolher uma ideia tanto genuína quanto despretensiosa – de imprimir o ato e efeito de pintar em convalescença, rememorando comidas afetivas e, portanto, experiências pessoais, – Felipe fez uma pintura de gênero ao seu modo, mas a idiossincrasia desses tons levemente ralos e encardidos e renderizações sem imagens de referência, alcança além da ideia de coletânea e do esgotamento de um assunto.

Barsuglia pintou estados mentais de forma improvável. Para tantas formas roliças, crocantes e pastosas, existe a mesma quantidade de aflições, ansiedades e desejos.

 

Procura conforto

Recorre à nostalgia

Anseia por misericórdia

Não alimenta o monopólio

Checa preço em três mercados

Faria tudo de novo

Trinta e seis vezes mais

Arrependimento a cavalo

Reincidência à milanesa

Entretenimento empanado

Pão e circo

Nada disso faz sentido

Mas é preciso

Pão, pão, queijo, queijo

Se debruça

Corpo cansado e olho vidrado

 

Nosso circuito exaure termos, jeitos, etiquetas, caras, nomes e vacilos e o que fica é a ressaca.

Quando chego em uma feira de arte, automaticamente busco uma bebida.

A ilusão de alívio mira na tensão concreta.

Não foi feita pra dar certo.

 

 

An already tired young person

An adult who is (still) infantilized

Dry mouth

A throbbing head

A pounding heart

Insufficient and interrupted sleep

A lost, hallucinatory dream

 

The instinctive freedom with which Felipe Barsuglia throws himself into his artistic practice has the ability to evoke intimate and even common feelings and responses.

His ability and predisposition to absorb and externalize our time with disconcerting humor makes him a rare inhabitant of a scene dominated by well-advised and well-behaved uniformity.

And for that to happen, he does not rely on excesses. Sometimes, a painted word, a portrayed person, or an incessant sound are more than enough to demonstrate his conviction and authenticity.

 

Blurred memory

Impulsive messages

Embraced toilet

Loose laughter and intestines

Hyped anxiety

New friendships

Shaken immunity

New enemies

 

In this series called Pinturas de Ressaca, Felipe, with a hangover, arrives at the studio and, with heightened sensitivity, arrives at the surprising obvious: he paints a composition that reflects the present. The intoxication of the previous day seeks solace in the illusory comfort of the following day. And so it goes.

In this case, the series is not a formula, but rather a recipe. Here, the dichotomy between addiction and habit, project and experience is revealed. The trio, which maintains the figure and alternates the treats, is based on memory, words, and experience.

The interplay of elements and foods that sometimes seem to make sense together also follows paths of puns, absurdity, saturation, and popular imagination.

By embracing an idea that is both genuine and unpretentious—to capture the act and effect of painting while convalescing, recalling comfort foods and, therefore, personal experiences—Felipe created a genre painting in his own way, but the idiosyncrasy of these slightly thin and dirty tones and renderings made without reference images goes beyond the idea of a collection and the exhaustion of a subject.

Barsuglia painted mental states in an unlikely way. For so many plump, crunchy, and pasty shapes, there is an equal amount of afflictions, anxieties, and desires.

 

He seeks comfort

He resorts to nostalgia

He longs for mercy

He doesn’t feed the monopoly

He checks prices in three markets

He would do it all again

Thirty-six times more

Repentance on horseback

Milanese-style recidivism

Breaded entertainment

Bread and circus

None of that makes sense

But it’s necessary

Bread, bread, cheese, cheese

He leans over

Tired body and glazed eyes

 

Our circuit exhausts terms, manners, labels, faces, names, and mistakes, and what remains is the hangover.

When I arrive at an art fair, I automatically look for a drink.

The illusion of relief targets concrete tension.

It wasn’t meant to work.

 

 

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